Informe Epidemiológico Nº 1 2021

Heloísa Wanick e Patrícia Pinheiro

27 abr 2021

INFORME Nº 01_2021

A LONGA PANDEMIA NO BRASIL: mais de 250 mil mortes por covid-19

Na última quarta-feira, 24 de janeiro, chegamos a 250 mil mortes pela covid-19 no Brasil. Solidarizamos com os familiares, parentes e amigos das pessoas que se foram. Lamentamos a perda de tantas vidas e acreditamos que grande parte dessas mortes poderia ter sido evitada.

Imaginávamos retomar nossos informes epidemiológicos em 2021 com mais esperança e contabilizando vidas no lugar de mortes. Infelizmente, o cenário da pandemia – ou sindemia (o fato de que há outras doenças, além dos fatores sociais, que incidem diretamente sobre a população ao mesmo tempo) - e a forma como está sendo conduzida a situação por aqui exige que tratemos de conversar, ainda, sobre o que é feito ou não pelos governos e o que podemos fazer coletivamente para conter o avanço do número de mortes.

No Brasil, segundo a newsletter Outra Saúde, de 25 de fevereiro de 2021, vivemos “o período mais longo de toda a pandemia”, com uma média de mortes acima de mil diariamente nos últimos pouco mais de 30 dias. Além de todo o sofrimento não contabilizado, se esse ritmo e a falta de um planejamento adequado continuar, a previsão é chegarmos, de acordo com o Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde, da Universidade de Washington, a 358 mil mortes em junho de 2021. Após os Estados Unidos, que ultrapassou a marca de 500 mil mortos, segundo monitoramento da Universidade Johns Hopkins, somos o segundo país em pior resposta à contenção da disseminação da covid-19. Importantes pesquisadores e meios de comunicação jornalística apontam que estamos muito próximos de entrar em colapso.

Enquanto o mundo inteiro revê as medidas protetivas de adoecimento pela covid-19 frente às novas variantes do vírus, continuamos tímidos e até mesmo relaxados quanto à manutenção das medidas de controle recomendadas. Por exemplo, enquanto em outros países, mesmo com a corrida pela vacinação das pessoas, adota-se a recomendação de máscaras mais eficientes de prevenção à disseminação do novo coronavírus e suas novas variantes. como as máscaras cirúrgicas e as N95, bem como medidas rigorosas de circulação de pessoas, muitas pessoas no Brasil, a começar pelo presidente do país, insistem em desconsiderar, inclusive, a necessidade do uso de máscaras e em manter o distanciamento social. É comum a cena de pessoas caminhando pelas ruas sem máscaras ou com elas penduradas no queixo, nas mãos e formas e aglomerações aqui e acolá.

Somado ao cenário de morte e internações por complicações pela covid, temos lamentavelmente, vidas que parecem não existirem aos olhos de muitos, novamente, a começar pelos governantes. São pessoas em sofrimento emocional, psíquico, financeiro, social e em situação de fome, por vezes já existentes antes da pandemia e agravados com a chegada dela.

Aumento da população em situação de rua e de pobreza extrema

Além da sinergia entre diferentes doenças, os problemas sociais não dão trégua. O aumento da população de rua tem sido alvo de preocupação de especialistas. Segundo reportagem da CNN Brasil, apesar da falta de monitoramento e de dados atualizados, há um aumento perceptível de pessoas em situação de rua nos espaços de acolhimento. O último levantamento nacional foi feito em março de 2020 e indicava em torno de 220 mil pessoas. Portanto, os efeitos da pandemia ainda não foram mensurados de fato.

Enquanto isso, a continuidade do auxílio emergencial ainda está em debate na Câmara dos Deputados. Segundo a Frente Parlamentar Mista de Renda Básica, com dados da PNAD contínua e a  PNAD Covid 19, com o fim do auxílio, em dezembro de 2020, o número de brasileiros em situação de extrema pobreza e fome chegou a quase 27 milhões. 12,8% da população está com renda inferior a R$ 246 por mês; em dezembro de 2020 eram 8,5%.

De forma insensata, o governo ainda insiste em manter diversas condicionalidades para selecionar quem pode ou não receber o auxílio emergencial. Como diz Monica de Bolle, economista e pesquisadora, “condicionalidade com emergência esvazia a emergência (...). não existe emergência condicionada” (em Interdição de Debate, em 25 fev. 2021). Ou há alguma dúvida sobre isso? Quem tem fome, tem pressa, como já dizia Betinho.

O que podemos fazer?

Diante da falta de um comando nacional efetivo no combate à pandemia e passadas as festas de fim de ano, quando foi nítido o relaxamento do distanciamento social, a situação se agrava. Para pesquisadores como Miguel Nicolelis, que coordenava o Consórcio Nordeste até pouco tempo, para evitar o colapso seria necessário um lockdown de 21 dias em todo o país.

No dia a dia, além de redobrarmos a atenção individual com o uso de máscaras adequadas e a manutenção do distanciamento social tanto quanto possível, vale insistir para que as pessoas com quem convivemos façam o mesmo. Precisamos aguardar o nosso lugar na fila da vacinação e estar atento para o fato de que, quando isso acontecer, é sinal que estamos parcialmente protegidos, mas que é necessário continuar com o uso de máscaras e distanciamento social. Podemos nos solidarizar com as diversas iniciativas de distribuição emergencial de alimentos, produtos de limpeza e outros itens básicos. Podemos e devemos dizer basta às pessoas influentes e disseminadoras de ideias negacionistas em relação à ciência.

Juntos, venceremos essa luta!

Para acompanhar informações sobre a pandemia em seu Estado e município, recomendamos: https://painel.redecovida.org/brasil e https://covid19br.wcota.me/