Informe Epidemiológico Nº10

Heloísa Walick, Ana Paula Marcelino Silva e Patrícia Pinheiro

13 agosto, 2020

Informe Epidemiológico Nº10


MAIS DE 100 MIL MORTOS, O ESTOQUE DE “UM REMÉDIO QUE NÃO SERVE PARA NADA” E O BRASIL CONTINUA EM “VOO CEGO”.


“Basta! Apesar de tudo, a primavera vai voltar” (Miguel Nicolelis, em entrevista à TUTAMÉIA TV, 05/08/2020[1]).


Inspirados na entrevista de Miguel Nicolelis, importante cientista da atualidade, e solidários com pessoas que têm seus familiares e amigos na soma dos mais de 100 mil mortos a que alcançamos esta semana no Brasil - número ultrapassado somente pelos EUA -, compartilhamos este informe.

Com cinco meses de pandemia, entre notícias, mensagens trocadas pelas redes sociais, nas filas de fila dos supermercados, na TV da sala, parece que todos foram aprendendo a linguagem da ciência e dos números. Enquanto se aguarda a descoberta de uma vacina eficaz e segura para prevenção à covid-19, pessoas trocam informações sobre curvas de casos, opinam sobre medidas de isolamento social e informações sobre possíveis descobertas de máscaras e medicamentos milagrosos.

Há um lado bom, o da procura e da exigência pela informação. E há o lado ruim, o das notícias descompromissadas e ou falsas que são parte do projeto de descarrilamento econômico, político e, principalmente, social pelo qual vem passando o Brasil nos últimos anos. Em meio a essa infodemia, infelizmente, nem sempre contamos com reportagens que tragam os avanços da ciência séria que se faz nesse país. Não bastasse toda a tensão que o momento traz, precisamos ainda tentar separar o que é ciência e o que é mera especulação, fakenews ou mesmo irresponsabilidade, pois o que está no centro do debate atual não é apenas a briga por poder, mas as vidas ceifadas de centenas de pessoas.

Também é importante considerar que, apesar de o Brasil ter destinado em abril deste ano 5,7% do PIB para fomentar as medidas de controle da pandemia, como o auxílio emergencial por exemplo, uma auditoria recente do Tribunal de Contas da União (TCU) constatou que o governo federal apresentou baixa execução desse orçamento - apenas cerca de 30% desse valor total. Além de baixos, os repasses a estados e municípios não tiveram critérios nítidos ou compatíveis com os impactos regionais do vírus. Nessa perspectiva, chama a atenção a insistência do executivo federal na manutenção do teto de gastos instaurado em 2016 que agrava o subfinanciamento do Sistema Único de Saúde, o SUS, o maior sistema público de saúde do mundo e ferramenta central no controle da pandemia.


Promessas de cura

O uso de medicamentos como a cloroquina ou, mais recentemente, a ivermectina, que circularam amplamente no país, precisam ser atentamente observados. Além de não ter comprovada a sua eficácia, mais uma informação sobre o remédio cloroquina parece estar sendo evidenciada: o seu uso sem indicação e prescrição médica, bem como a dosagem que vem sendo utilizada pode apresentar efeitos colaterais cardiovasculares. Portanto, o seu uso pode estar associado à ocorrência de mortes por infarto.

O que não é muito comentado é o fato de que o governo federal usou a máquina pública, através do Exército, para produzir grandes estoques dessa medicação e agora não tem onde utilizá-la uma vez que, como Nicolelis diz, este é “um remédio que não serve pra nada”, em termos de combate à covid-19. Por outro lado, faltam medicamentos para sedar e entubar pacientes acometidos pela covid-19 que estão em estado grave. E assim, a atenção e os recursos investidos na cloroquina acabam por desviar o foco no aprimoramento das práticas que têm se apresentado como mais eficientes na recuperação de pacientes, já incorporadas em protocolos hospitalares ao longo da pandemia.

Além de não haver comprovação de sua eficácia, têm sido apontados riscos ao sistema cardiovascular pelo uso indevido da cloroquina e da hidroxicloroquina, que também pode causar lesões na retina, distúrbios no sistema linfático, gastrointestinal, psiquiátrico, entre outros. Mas qual o motivo da cloroquina ter sido apontada desde o início como eficaz no tratamento da covid-19? O mesmo motivo que levou outro fármaco, a ivermectina, a também adquirir recentemente o mesmo status de salvadora: a necessidade dos detentores do poder de manter o seu status. Era necessária uma resposta urgente à crise, não apenas sanitária, que se instalou no mundo por causa do coronavírus, e esses medicamentos são lidos equivocadamente como preventivos, o que causa outro efeito perigoso: o relaxamento das medidas de isolamento social antes da hora.

Dessa vez, o “milagre” viria a partir de  um antiparasitário cujos efeitos colaterais ocorrem principalmente no sistema nervoso. Mas respostas irresponsáveis desse tipo, principalmente no Brasil que já ultrapassa os 100 mil mortos - número que pode ser bem maior devido à baixa testagem e à subnotificação dos casos - custaram vidas. Ademais, além das possíveis sequelas da covid-19, provavelmente teremos que lidar com as consequências do uso indevido desses medicamentos. A questão é que as formas que se mostraram até o momento mais eficazes no controle da pandemia não vieram do uso de fármacos, mas de recomendações como o isolamento social, a higienização constante das mãos e medidas de etiqueta respiratória como o uso de máscaras. Além disso, ainda seguimos sem testagens em massa.

Muitas dessas medidas dependem do acesso ao saneamento básico, outra ferramenta essencial no controle epidemiológico. Mas, novamente, o Brasil avança na direção contrária e pretende privatizar esse serviço, ao aprovar o novo marco legal do saneamento básico (PL 4.162/2019), o que já se mostrou ineficaz em diversos países com problemas sanitários bem menores do que os nossos.


Dados epidemiológicos da Paraíba

Enquanto isso, na Paraíba, as notícias sobre a diminuição do número de mortes por covid-19 é positiva. Isso significa que os serviços de saúde estão mais preparados, mesmo com problemas relativos a recursos ainda insuficientes. Hoje, há um maior número de leitos e equipamentos hospitalares; as condutas com os doentes estão mais conhecidas e os profissionais mais atualizados. A notícia ruim é que o risco pandêmico ainda é alto por aqui.

Segundo dados do Consórcio Nordeste, publicados em 11 de agosto, a Paraíba atingiu o pico da pandemia, mas ainda apresenta um risco epidêmico alto. Quer dizer que é real a possibilidade do número de óbitos voltar a subir. A preocupação dos especialistas está na dupla ‘afrouxamento das medidas de isolamento social com aumento da circulação e aglomeração de pessoas’ e o alto número efetivo de reprodução R(t), “que mede a capacidade de um indivíduo contaminar outras pessoas”.  A Paraíba ainda apresenta um dos maiores números de  R(t) da região Nordeste. Daí a preocupação de termos como resultado uma nova onda da pandemia por aqui.

Por fim, os dados do Painel CoVida, atualizado em 10/08/2020, indica que a taxa de morbidade por covid-19, ou seja, o número de pessoas contaminadas por covid-19 a cada 100 mil habitantes da Paraíba e de João Pessoa está bem acima da média nacional, que é de 1.446 casos/100 mil habitantes. Foram 2.248 casos por 100 mil habitantes no estado, o que corresponde a um total de 90.366 casos confirmados, sendo 2.023 casos fatais. Ao total, em João Pessoa temos 23.012 casos confirmados; sendo 711 óbitos. A taxa de morbidade na capital é superior a do estado da Paraíba e quase 105% a mais do que o valor pro Brasil. Em João Pessoa, são 2.844 casos de pessoas contaminadas a cada 100 mil habitantes


Mas há esperança?

Como disse Nicolelis, a primavera vai voltar e assim como no calendário, parece já dar os primeiros sinais disso. Mas foi preciso tempo e esforço dos pesquisadores e pesquisadoras que, apesar da falta de incentivo por parte do Estado brasileiro, continuam buscando vacinas, medicamentos e técnicas de cuidado para lidar com os infectados. Alguns avanços no tratamento de pacientes graves já foram observados, como a pronação, técnica antiga que permite uma melhor ventilação dos pulmões do paciente com SDRA – síndrome do desconforto respiratório agudo – uma das consequências mais graves da infecção pelo coronavírus. Nessa busca, recentemente a Fiocruz firmou junto à Universidade de Oxford e a uma biofarmacêutica multinacional um acordo para a produção da vacina da covid-19, caso haja comprovação de sua eficácia.

Enquanto aguardamos a vacina, sigamos com as lições que a pandemia já nos ensina. No lugar de ressaltar nossas fragilidades, optamos por lembrar sobre a importância do Sistema Único de Saúde (SUS) na resposta a essa crise que atravessamos há cinco meses. Mesmo que não seja possível explorar aqui, destacamos também as diversas redes sociais construídas e fortalecidas principalmente entre populações periféricas, quilombolas e indígenas para fazer frente aonde o cuidado do estado não chega ou é insuficiente.

Nos solidarizamos com o luto e sofrimento das famílias e amigos das pessoas que perderam suas vidas pela covid-19. Finalizamos com a chamada para um amadurecimento social, para construirmos o que queremos ser enquanto nação e, enfim, para nos unirmos a uma só voz e, em forte e bom tom, exigir “Basta”! Basta de um voo cego! Temos ciência, um serviço de saúde pública, riqueza (mesmo que concentrada) e pessoas que querem sair vivas dessa e de outras crises sanitárias possíveis.