Informe N.5_2021


Rita de Cássia Melo Santos, Ana Paula Marcelino

06 maio 2021


Ao longo do último ano temos produzido uma série de reflexões sobre as diferentes formas como a pandemia tem afetado nosso modo de vida. Avaliamos os impactos do número de mortos, da cobertura vacinal, do risco de propagação do vírus, entre muitos outros aspectos. Passado um ano parece evidente que houve também uma mudança profunda na forma de nos relacionarmos. Os encontros e as formas de demonstração de sentimentos passaram a seguir protocolos rígidos de saúde. Máscara, face shield, álcool 70% e dois metros de distância se tornaram protocolos comuns no nosso novo cotidiano. Nunca existiram tantas barreiras limitando as interações entre duas pessoas. O olhar, o ouvir e o toque “ao vivo” foram transpostos ao formato das telas de computadores e smartphones.


A suspensão dos encontros, da rotina, dos beijos e abraços, o fluxo de visita aos parentes e amigos, os espaços comuns de sociabilidade, tudo tem sido remodelado frente ao distanciamento necessário à contenção do novo vírus, suprimindo uma parte vital das interações e dos modos como se dão as relações. A percepção de que o outro pode carregar uma potencialidade fatal agravou ainda mais a insegurança provocada pela pandemia.


Se antes já estávamos completamente imersas numa “sociedade de risco”, como teorizou o sociólogo alemão Ulrich Beck após o acidente nuclear de Chernobyl em 1986, hoje fomos levadas a extremos. O outro, ponto primordial de quem somos, se tornou ameaçador em si. Passado um ano, ainda tememos encontrar novas pessoas, potenciais portadoras do vírus que põe em risco todos aqueles que ousam romper o isolamento.


No novo cenário estabelecido e sem previsão clara de término, seria possível estimar os modos pelos quais a pandemia tem impactado nossos afetos? Em quais áreas para além da saúde a pandemia tem nos afetado?


Vida presencial estilhaçada


A convivência presencial mais restrita ao ambiente doméstico parece caminhar em uma direção de novas rupturas. A pandemia impactou diretamente no número de divórcios. Só no segundo semestre de 2020, foram 43,8 mil processos de pedido de divórcio, um aumento na ordem de 15% em relação ao período anterior. No caso da Paraíba, registou-se um aumento da ordem de 19%. A taxa de separação  já vinha em crescimento desde a facilitação permitida pela resolução 100 do Conselho Nacional de Justiça, mas, a pandemia (e as novas formas de vivência do cotidiano) tornou a curva de crescimento ainda mais ascendente.


A supressão das aulas presenciais levou crianças e adolescentes a uma restrição severa do seu regime de sociabilidade. Dados do PNAD apontam para um crescimento de 4 milhões de crianças e jovens fora do sistema escolar em 2020. Somado ao índice do ano anterior, chegamos a marca de 5 milhões de pessoas em idade obrigatória fora da escola. Para além dos prejuízos educacionais e das vulnerabilidades a que essas crianças e jovens são lançadas com o fechamento das escolas, a pandemia, ao suprimir radicalmente a vivência presencial, adiciona um sofrimento psíquico que não pode ser ignorado.


Lançada pela Fiocruz, a cartilha “Saúde Mental e Atenção Psicossocial na Pandemia Covid-19” aponta para necessidade de monitorarmos as crianças e adolescentes em relação a sentimentos como medo, dificuldade de concentração, irritabilidade, tédio; e, alterações no padrão de sono e de alimentação. A cartilha sugere ainda o enfrentamento e a conversa franca com as crianças e jovens sobre aspectos como morte e adoecimento, protocolos de cuidado e acolhimento dos sentimentos por elas expressados.


Outro segmento bastante afetado pelo contexto pandêmico corresponde ao grupo de idosos. Inicialmente apontados como os mais vulneráveis ao novo vírus, esse grupo viu sua autonomia ser severamente sancionada dentro dos espaços familiares, bem como suas práticas sociais ridicularizadas no ambiente público. A enxurrada de memes, ainda no primeiro ano, levou a uma inversão e uma fragilização das hierarquias domésticas, ampliando os efeitos da pandemia nesse segmento e levando a uma falsa impressão de imunidade dos jovens.


A emergência das novas cepas e a aplicação massiva da vacina entre os maiores de 60 anos, a partir de 2021, em parte reverteu esse quadro ampliando a percepção ameaçadora do vírus para todas as faixas etárias. Essa mudança vivenciada já nos primeiros meses de 2021, longe de amenizar o terror da pandemia, tem levado ao seu aprofundamento. Especialmente, considerando o tempo em que estamos imersos nessa situação.


Todo esse contexto tem gerado um agravamento da saúde mental coletiva. Segundo dados do Ministério da Saúde, as razões que desse agravamento são de ordens diversas, independentes e estão relacionadas “a ação direta do vírus da Covid-19 no sistema nervoso central, as experiências traumáticas associadas à infeção ou à morte de pessoas próximas, o estresse induzido pela mudança na rotina devido às medidas de distanciamento social ou pelas consequências econômicas, na rotina de trabalho ou nas relações afetivas e, por fim, a interrupção de tratamento por dificuldades de acesso”. Esse quadro somado à redução de atividades físicas, à ampliação da exposição a telas, à redução da alimentação saudável e das horas de sono tem se mostrado uma armadilha de difícil solução. Estamos todos afetados por ela.


A virtualização dos relacionamentos e a pandemia


Diante do cenário crítico da vida presencial, a busca pelo mundo virtual se constituiu como a saída possível no novo contexto. A virtualização das relações não é um fenômeno recente e há pelo menos duas décadas já vínhamos avançando nessa direção. Analisando as 10 redes sociais mais utilizadas no Brasil, temos uma diversidade de ferramentas que foram incorporadas no nosso dia-a-dia. Plataforma de vídeos, como o Youtube (2005), primeiríssimo lugar em acesso; espaços para interações sociais, como o Facebook (2004) e o Instagram (2010); ferramentas de comunicação, como o Whatsapp (2009); se tornaram itens usuais e corriqueiros. Esse boom das redes sociais se deu no início dos anos 2000, primeiro com a rede profissional LinkedIn (2002) e depois com a rede de  chamadas Skype (2003). Entre todos eles, houve o  Orkut.  Inaugurado em 2004 e desativado em 2014, chegou a associar mais de 40 milhões de brasileiros em 2008, ou seja, cerca de  20% da população brasileira daquele ano.


Outro ponto interessante da “virtualização” das relações pessoais se deu através da emergência de aplicativos exclusivamente direcionados à promoção de encontros afetivos/sexuais a partir da segunda década do século XXI. Lançado em 2012 e disponível no Brasil desde 2013, o Tinder foi um aplicativo pioneiro para constituição de relacionamentos dessa ordem. O Happn, lançado no ano seguinte, adicionou a geolocalização como elemento diferencial e passou a disputar com o Tinder entre os apps mais utilizados na hora da paquera.


Essa grande curva que se iniciou nos anos 2000 com a popularização da internet e dos equipamentos de acesso, como smartphones e computadores, ganhou novos contornos a partir do coronavírus. No primeiro mês seguido à decretação da pandemia pela OMS, ainda em 2020, o Tinder viu o número de mensagens diárias aumentar em 27%; e, o Happn, em 20%. As plataformas virtuais de sexo também apresentaram uma tendência de crescimento durante o primeiro ano pandêmico, ampliando o seu acesso em alguns casos na ordem de 20%, a exemplo da rede Sexlog.


O fenômeno de crescimento das redes de relacionamentos afetivo/sexuais é bastante complexo e envolve, para além da busca por uma saída afetivo/sexual em tempos de isolamento social, um aspecto econômico fundamental. A crise sanitária, como já abordamos aqui, também se revela como uma crise política e econômica. Nesse cenário, a inserção de mulheres em serviços de conteúdo como a Only Fans,  tem se conformado também como uma saída financeira ao negociar conteúdos sexuais. Essa estratégia vem sendo replicada em outros espaços não destinados a esse fim, a exemplo das redes sociais mencionadas, Whatsapp e Instagram.


Outro fenômeno complexificador do uso das redes virtuais em tempos de pandemia diz respeito ao fenômeno do “banimento”. Se por um lado as redes se tornaram os mecanismos seguros para romper virtualmente com o isolamento; por outro, a divulgação de registros de aglomerações, festas e viagens têm sido duramente criticadas levando muitas vezes ao linchamento virtual, a perda de seguidores e o rompimento de contratos, especialmente para as celebridades. É o que se costuma chamar de “cancelamento” no meio virtual. Nas cidades menores, com menos espaços de sociabilidade seguros aos novos protocolos, essa fiscalização virtual se mostra ainda mais presente e transborda para as pessoas comuns. Sobretudo, quando relacionado a pessoas LGBTQI+, como aponta Felipe Padilha, com ainda menos espaços de interação física e alvo de preconceitos nesses espaços.


Liberdades individuais vs responsabilidade coletiva


A falsa sensação de sociabilidade provocada pela interação através das telas e redes sociais acirrou o processo de individualização já em curso há bastante tempo. Antes da pandemia, subverter essa condição era justamente privilegiar a interação presencial. A subversão ao afastamento do outro -  nas conversas no elevador, na mesa do bar, na sala de aula, nas reuniões de família - era engendrada no cotidiano, nas formas mais triviais de comunicação. Agora, é uma questão de saúde pública e de preservação das vidas evitá-las.


Pouco se discute sobre os desdobramentos morais da pandemia. Logicamente, é indefensável que se organizem festas e  grandes aglomerações neste momento, ainda mais no contexto brasileiro, caracterizado pela escancarada negligência na gestão da crise sanitária. Ainda assim, é preciso considerar os motivos que levam a esses tipos de acontecimentos, pois eles deixam bastante claro como a percepção sobre o risco é diferente de pessoa para pessoa mas, sobretudo, como a própria leitura sobre a noção de sociedade também varia muito. Esse tipo de acontecimento também resgatou de forma bastante intensa um falso dilema entre liberdades individuais e interesses coletivos.


De que forma estamos sendo afetadas e afetados pela pandemia?, é uma pergunta que ainda levaremos muito tempo para conseguir responder.


Ilustração: TAVARES, Raquel. Imagens de mulheres em contato de cuidado em saúde mental. Revista Áltera, João Pessoa, v.3, n.11, p.252-258 jan./jun.2020.