Informe N.8_2021

Ana Paula Marcelino, Izadora Vieira

17 junho 2021

Desde que passou a ser a intervenção não-farmacológica de proteção mais viável (e econômica), a máscara foi se transformando numa das barreiras mais efetivas para evitar a contaminação por Covid-19. No entanto, todos e todas sabemos do incômodo provocado pelo uso deste artefato que a cada dia está sendo mais e mais necessário. A máscara cobrindo o nariz e a boca é a forma de visualização mais óbvia do cuidado e do autocuidado com relação ao vírus. E mesmo que existam perdas significativas no que diz respeito às expressões corporais de um diálogo, as máscaras continuam, mesmo após mais de um ano de pandemia, uma das formas mais eficazes de impedir que o cenário de quase 500.000 mortes notificadas no Brasil seja ainda pior.


Mas entre a recomendação cientificamente justificada e a adequação do objeto na vida das pessoas há uma distância perpassada por marcadores sociais determinantes. Afinal, quem pode comprar a N95 ou a máscara com íons de prata ou a máscara de pano cortada a laser vendida nas feiras? Quem não pode comprar máscaras? Na CPI da Covid, por exemplo, assistimos diariamente aos senadores e depoentes usando máscaras que a maioria da população não poderia comprar, ainda mais diante da alta no preço da cesta básica e do alto índice de desemprego. Em um cenário de disseminação desordenada de novas cepas do vírus, não seria fantasioso falar na distribuição das máscaras N95/Pff2 como uma política pública direta de contenção ao vírus.


Porém, a atual desordem jurídico-federativa fez com que a relação dos brasileiros e brasileiras com as máscaras fosse explorada dentro do embate político ideológico pelo presidente Jair Bolsonaro, que deixa novamente nas mãos dos governadores a decisão sobre a exigência de uso e, ao mesmo tempo, promove a desinformação através de falas extraoficiais. Ao explorar a percepção generalizada sobre o incômodo - quem está feliz usando máscara há mais de um ano? - com relação ao uso das máscaras, a presidência contribui para uma maior exposição ao risco de infecção tanto de quem deixa de usar quanto de quem mantém a recomendação sanitária. O simbolismo em torno desse objeto é pautado por disputas políticas, epidemiológicas mas, sobretudo, individuais. Então, por que devo continuar usando máscara?  É o que vamos esclarecer neste informe.


Usos políticos da máscara


Não é nenhuma novidade que as falas “polêmicas” do presidente da república contradizem as recomendações mais exitosas de controle da infecção por Sars-cov-2. Mas mais que opiniões sem embasamento científico, algumas dessas falas têm relação direta com a situação descontrolada que o país vive atualmente. Desde a utilização de medicamentos ineficazes para tratar e evitar a contaminação até a promoção de aglomerações, as falas do chefe do Planalto têm prestado um desserviço para as medidas de prevenção. Tudo isso construído sobre a inércia federal com relação a campanhas de conscientização e de cuidado, que foram efetivadas por determinação judicial. Esse plano de conscientização só foi lançado em maio deste ano, e se encerra, ironicamente, com os dizeres “Sejamos, juntos, uma pátria de cuidado ao próximo, uma pátria de vacinas, uma pátria de máscaras, uma pátria de cuidado e esperança a todos os brasileiros". A repetição da palavra “cuidado”, antecedida pelo apego do governo à semântica em torno de “pátria” é bastante significativa, já que, como mostrou um estudo da Faculdade de Saúde Pública da USP, a gestão desordenada da Covid foi na verdade uma tentativa de promoção da imunidade de rebanho.


Mas ao atacar a necessidade de utilização da máscara, o presidente explora a dimensão mais simbólica da pandemia de Covid-19. É também a dimensão mais representativa sobre a gestão do problema, pois traz à baila questões sobre as liberdades individuais e a responsabilidade de cada ente federativo na contenção da crise. Ainda em agosto de 2020, o presidente fez críticas ao uso das máscaras que, segundo ele, seria uma medida ineficaz de proteção contra a Covid-19. No fim daquele mês o Brasil tinha mais de 121.000 mortos notificados por Covid-19.


Hoje, com quase 500.000 mortes notificadas, quando nós estamos ainda mais cansados, física e mentalmente, por causa das restrições necessárias em virtude da Covid-19, o  presidente voltou a criticar de maneira mais incisiva o uso das máscaras, inclusive afirmando que apresentará um parecer do ministro da saúde, Marcelo Queiroga, para respaldar sua afirmação. Essa fala certamente ressoa nas mentes mais conscientes sobre a necessidade do uso visto que provoca um efeito avalanche sobre a percepção do risco. Afinal, ao ver pessoas nas ruas sem máscara, o cansaço provocado pelas privações certamente nos faz questionar: Por que não?


Quais níveis mais seguros de cobertura da vacina para que possamos deixar de lado a máscara?


De acordo com dados do Ministério da Saúde, 81,5 milhões de pessoas já foram vacinadas no Brasil, desse quantitativo, apenas 23,9 milhões se imunizaram com as duas doses. Esse número ínfimo de 11% da população brasileira vacinada, está ligado diretamente ao atraso na compra das vacinas, ampliando, portanto, a transmissão das novas variantes - que têm se mostrado mais transmissíveis - e consequentemente, gera mais longos meses de pandemia, usando máscaras e mantendo o distanciamento social.


Infelizmente, por conta desse cenário de falta de políticas eficazes de contenção da pandemia, duas novas variantes foram encontradas em território nacional. A primeira, nomeada Gama, é mais transmissível do que o coronavírus tradicional e mais agravante pois atinge pessoas que já foram infectadas. O estudo da Fiocruz mostrou que, se o estado do Amazonas tivesse seguido com o protocolo de fechamento dos locais e distanciamento social, teriam muito menos casos, já que, de 25% a 30% dos casos e mortes de dezembro a janeiro de 2021 no estado, foram de pessoas que já tiverem Covid.


No mês de maio, o Reino Unido detectou a variante Delta, que apesar de ter adotado o lockdown no começo do ano e avançado com as vacinas, nas últimas semanas, os casos em pessoas não vacinadas abaixo dos 30 anos, tem aumentado consideravelmente. A partir dos estudos feitos pelo grupo de vigilância do Reino Unido, alerta-se que essa variante é de 40% a 50% mais transmissível que a variante Alfa - isso quer dizer que, com a variante Alfa, uma pessoa transmite o vírus para 3-4 pessoas, já a variante Delta, transmite para 6 pessoas. O país tem ficado alerta - mesmo que o número de pessoas hospitalizadas e mortas seja mínimo -, pois os indivíduos que já tomaram a primeira dose estão sendo infectados, de uma forma extremamente rápida.


Atila Iamarino, doutor em microbiologia, apresentou que com a transmissibilidade exponencial da variante Delta e a ausência de lockdown no Brasil, vai ser necessário que pelo menos 84% da população seja vacinada para se chegar nas seguintes metas: casos controlados, o mínimo de pessoas hospitalizadas e dias corridos sem a marcação de óbitos no nosso país. Para que esse número de casos se torne constante, ou melhor, diminua drasticamente, para além da vacina, é mais que necessário que a população utilize máscaras e mantenha o distanciamento. Precisamos sobreviver, já que o plano do presidente segue uma lógica contrária.


Onde conseguir máscaras: https://www.pffparatodos.com/


Use máscaras, tire o presidente.