Setembro Amarelo passa e como fica a prevenção ao suicídio?

Heloisa Wanick e Patrícia Pinheiro

30 set 2020

As especulações em torno do aumento de suicídios como desdobramento da pandemia da covid-19 foram muitas. Giram e giraram como possíveis consequências do tempo prolongado de isolamento social (para quem pôde); foram relacionadas ao aumento das violências domésticas, interpessoais, vividas por mulheres, crianças e idosos; da falta de convívio social de crianças e adolescentes e aqui e acolá; ao aumento no consumo de álcool e outras drogas e, numa ou outra notícia, do adoecimento mental de trabalhadores que perderam seus empregos ou, no caso dos informais, que não tinham como trabalhar.


O adoecimento mental e o suicídio não são fatos novos. Eles vêm atingindo pessoas de diferentes idades e de contextos sociais diversos e, ao longo das últimas décadas, sofrido aumentos significativos com ampliação das faixas etárias de ocorrência. Mesmo que ainda ocorra com maior frequência entre pessoas de 20 a 59 anos, as mortes por suicídio entre crianças e adolescentes vêm aparecendo cada vez mais nas estatísticas de saúde, principalmente, as tentativas de suicídio e as automutilações nestes grupos. São aqueles que, em tempos “normais” já são considerados vulneráveis. Isso tem vindo à tona de alguma maneira.


Outras situações, digamos igualmente ordinárias, mas não evidenciadas, são as de grupos suicidários como a população LGBTQI+, de pessoas privadas de liberdade, sobretudo mulheres, de agricultores e de trabalhadores da indústria. Há, ainda, outras situações, por exemplo, a dos indígenas, sobre os quais conhecemos determinadas situações pelas  pesquisas que se debruçam sobre tais causas, muitas vezes, inclusive, com pesquisadores e cientistas indígenas.


E, de forma extraordinária, podemos destacar os profissionais de saúde da linha de frente no cuidado com as pessoas contaminadas pelo novocoronavírus. 


É certo que essas violências, suicídios ou tentativas, ocorrem por causas diversas. Mesmo antes da pandemia, os transtornos mentais têm sido apontados como suas principais causas, entre esses os casos de transtornos de ansiedade, o transtorno bipolar e a depressão. Por outro lado, podemos afirmar: nem todas as pessoas que cometem suicídio têm transtorno mental. 


Como diz Cecília Minayo, o suicídio é o evento violento que mais mata. Para ela, o “suicídio tem que ser pensado como parte da vida e não somente como o ato de morrer”. Se todas as vidas importam, como tem sido a bandeira carregada por uma parcela da população atualmente, temos um momento ímpar pra trazer à tona a desigualdade presente também nas ocorrências do suicídio e, dessa forma, a necessidade de ampliarmos o olhar sobre esse que é considerado por cientistas sociais como um fato social. 


Enfim, para além dos transtornos mentais e do tratamento da tristeza, do sofrimento e da ansiedade como doenças, é preciso deixar transparecer o que há de social nas ocorrências de suicídio.


Se a pandemia atingiu a todos, mesmo que de formas diferentes, com o suicídio não é diferente. Provavelmente os desdobramentos emocionais foram sentidos, vividos e cuidados de forma diversa e fica a pergunta: como está o acesso aos serviços de cuidado e saúde mental para essa diversidade de situações e de pessoas? Em agosto de 2020, a Organização Mundial de Saúde já lançava o apelo aos serviços de saúde mental para se organizarem para atendimento à previsível demanda advinda dos efeitos da covid-19.


Chegamos em algo que queremos compartilhar com vocês: fala-se tanto sobre a relação entre a covid-19 e um maior risco de ocorrência de suicídio; onde estão essas estatísticas? Tomando pontualmente as notificações de ocorrências de tentativas e de suicídios em João Pessoa, os dados não correspondem a tais expectativas. É certo que risco e fato são coisas diferentes, mas para se falar de um ou outro, é necessário que se tenha dados. Então para se conhecer a realidade, é preciso que, além dos serviços de saúde receberem as pessoas em situação de sofrimento emocional e lhes oferecerem o cuidado a que tem direito, cumpram a obrigatoriedade de registrarem esses atendimentos. 


Tomando-se como exemplo as notificações de João Pessoa, essa correlação ainda não aparece, nem nos dados de mortalidade que são tidos como mais robustos, nem em relação às tentativas (ou violências autoprovocadas), principalmente onde o cuidado de prevenção deve ser realizado.


Assim, para verificarmos o risco e conhecermos a realidade epidemiológica de uma determinada situação de saúde e adoecimento de uma população, é preciso o registro desses eventos. No registro, por sua vez, deve ser realizado conforme orientação do Ministério da Saúde a partir da lista de eventos de notificação compulsória, como o suicídio, uma violência autoprovocada, e de seu instrumento de notificação, a ficha de violência interpessoal e autoprovocada.


Dados


Em 2019 foram 43 óbitos por suicídio, sendo 33 pessoas do sexo masculino e 10 do sexo feminino. Em 2020 foram registrados (até meados de julho) 19 óbitos até meados de julho, respectivamente, 15 e 4 para o sexo masculino e feminino; ou seja, 43% do total de 2019. No que diz respeito às violências autoprovocadas, onde se incluem as tentativas de suicídio e as automutilações, das 740 ocorrências em 2020, 46,2% (342) foram de violência autoprovocada, 37% do quantitativo total de 2019. Entre estas, 68,1% (233) ocorreram entre as mulheres, com maior prevalência na faixa etária entre 10 a 59 anos.

A fonte dos dados de mortalidade / óbito é  Datasus/SIM (Sistema de Mortalidade) / Secretaria Municipal de Saúde de João Pessoa /Diretoria de Vigilância à Saúde / Gerência de Vigilância Epidemiológica.


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A preocupação que fica é, mesmo que não estejam retratados nos dados, se esses eventos estão ocorrendo em maior número, ou se se espera que ocorram, de que forma está se dando a organização dos serviços públicos de prevenção ao suicídio e de acolhimento às pessoas em sofrimento psíquico?



Em João Pessoa, alguns serviços estão já ofertados antes da pandemia estão se reorganizando para atendimento. Alguns desses são:

·         CVV - Disque 188 ou acesse cvv.org.br (24 horas)

·         Corpo de Bombeiros - Disque 193 (emergências/tentativas de suicídio)

·         Projeto de Suporte Psicológico - WhatsApp: (83) 99146-2469

·         Ambulatório de Saúde Mental Gutemberg Botelho - Rua: Dom Pedro II, 1826 – Torre/ João Pessoa | Contato: (83) 99108-2895

·         Caps Regional AD III Jovem Cidadão - Rua Safra Said Abel da Cunha, 326 – Tambauzinho/ João Pessoa | Contato: (83) 3218-5902

·         Espaço de Atenção à Crise/Serviço de urgência e emergência - Complexo Psiquiátrico Juliano Moreira | Endereço: Rua: Dom Pedro II, 1826 – Torre/ João Pessoa | Contato: (83)3211-9820

·         Caps III Caminhar - R. Paulino Santos Coelho, s/n Bairro: Jardim Cidade Universitária - fone: 3218 – 5914 / 7008. Atendimento 24 hrs, demanda espontânea e referenciada (referencia inicial para o suicidio acima de 18 anos).

·         Caps III Gutemberg Botelho - Av.: Minas Gerais,409, Bairros dos estados fone:3221-6700. Atendimento 24 hrs, demanda espontânea e referenciada.

·         Caps-AD III David Capistrano - Localizado: R:.José Soares, s/n bairro: Rangel – fone: 3218 – 5244. Atendimento 24 hrs, demanda espontânea.

·         Caps i Cirandar - R: Gouveia Nóbrega, s/n bairro: Roger – fone: 3214 – 6079. Atendimento segunda a sexta das 8h- 17h.

·         Complexo Hospital Municipal Tarcísio Burity – Ortotrauma: R.: Agente Fiscal Jose Costa Duarte, s/n – fone: 3214-3291 (urgência e emergência – 24 horas).

·         Pronto de Atendimento de Saúde Mental – Pasm - R. Agente Fiscal Jose Costa Duarte, s/n – fone; 3214-3291 (urgência e emergência – 24 horas).

·         Hospital Municipal Valentina de Figueiredo: Av. Mariângela Lucena Peixoto, Valentina I, fone – 3218-9404 (até 14 anos).