A potência do SUS

Entrevista com Raquel Fernandes, Terapeuta Ocupacional - Conde, PB 

09/09/2020

Por Ana Paula Marcelino, Patrícia Pinheiro e Thayonara Santos

     Raquel é formada pela UFPB, teve sua primeira experiência de trabalho em Ferreiros, Pernambuco, na atenção básica. Já no Conde, onde ela trabalha com reabilitação física, pode colaborar com um processo de retomada do SUS em sua potência. Durante a pandemia, novos desafios se colocaram e, sem os atendimentos regulares, passou a atuar na atenção primária e atualização de informações por intermédio do Programa Sentinelas da Saúde, na comunidade quilombola de Mituaçu, junto com a Unidade Básica de Saúde. Acompanhe a entrevista com Raquel: 

  • CASA DE MARIA, espaço para horizontalidade, a potência do SUS

     Aqui [no Conde] tem a Casa de Maria, que é uma casa de acolhimento à mulheres em situação de violência ou não. Lá eu fiquei com as práticas integrativas, a auriculoterapia...e foi uma experiência gigante pra mim! A riqueza dessas mulheres daqui do Conde, desse povo. O quanto eles são empoderados de quem são é muito forte aqui. Eu atendia parteiras lá...parteiras que fizeram nascer metade desse Conde... E a gente conseguia fazer rodas de conversa lá, utilizava música, e acima de tudo tinha essa escuta, essa acolhida às mulheres. Já somos tão sofridas e quando a gente para pra ouvir as histórias de outras mulheres, a gente vê que tem muito mais sofrimento, tem muito mais histórias do que até onde a gente sabe. 

    Que esse é o meu trabalho como terapeuta ocupacional: ver significado, tentar levar as pessoas também a ressignificar sua vida, seu cotidiano.

     O que me deixa feliz é saber que é possível fazer um SUS diferente sim. E que apesar de ver muitas pessoas que não se importam, que acham que é um sistema falido...mas o quanto a gente toca a vida das pessoas, o quanto a gente tá próximo.

     Não só reabilitar o físico, mas aproximar. A doença afasta as pessoas.

    É possível a gente estar com o outro de uma maneira diferente  A gente é muito além do que só nossas dores físicas. Eu tento muito trabalhar isso com os usuários... que nós somos para além disso, que às vezes a gente se distancia tanto. E até esses processos de doença nos afastam disso, do nosso cuidado, com a gente mesmo.

  • SENTINELAS DA SAÚDE

    O Sentinelas da Saúde surgiu no meio da pandemia. (...) Nesse projeto, profissionais da saúde, como eu, de serviços especializados que não estariam funcionando, a princípio, foram realocadas para USF pelo município. Eu fui escolhida pra ir à comunidade quilombola de Mituaçu. Tive a sorte de encontrar aquele povo maravilhoso! Eu nunca entrei numa unidade de saúde para me sentir daquele jeito. Uma equipe muito unida, muito organizada. Quando cheguei lá, a princípio fui acompanhar a ACS Mônica, maravilhosa, já me recebeu de braços abertos. A gente conversava muito não só sobre a pandemia – com tantas notícias aparecendo elas se viam atordoadas com tanta informação – mas a gente conseguia ir para além disso, a gente conseguiu construir um vínculo de cuidado.

    O mais rico pra mim do Sentinelas foi fazer enxergar essa nova forma de cuidado. Como é possível a gente estar perto estando longe? Porque até então, na cabeça da gente, isso não era tão possível. E aí eu comecei a fazer um trabalho de ligar para as pessoas.

    Quando pedi pra Mônica um levantamento com os nomes das pessoas no grupo de risco, ela tinha tudo. Dezenas de pessoas...idosos, pessoas com deficiência... Inclusive, o Sentinelas nos proporcionou a gente a fazer um levantamento de quantas pessoas com deficiência têm o Conde. Então, o Sentinelas não ajudou só na atenção primária, mas também a atualizar informações que há muito tempo a gente não tinha. E aí eu passava esse material para uma planilha e ligava para o usuário. Explicava o projeto e perguntava se a pessoa ou alguém da família havia apresentado algum sintoma gripal. Caso a pessoa ou alguém da família apresentasse algum sintoma, eu pegava os dados – nome, cartão do SUS, idade, quais sintomas apresentava – e ficava ligando para elas durante a semana. E também agendava quando essa pessoa iria à unidade para ser testada.

     Mas para além disso, o Sentinela me permitiu observar outras coisas. Porque essa coisa da unidade de saúde ser próxima do usuário nunca fez tanto sentido como agora. Lá em Mituaçu, além de ser pequeno, todo mundo se conhece. Achei interessante o contato que a técnica, a enfermeira Sandra, não só ela, mas toda equipe... Mas os usuários têm um respeito com Sandra que eu fiquei admirada.

  • QUESTÃO RACIAL

      Pra mim foi muito empoderador a questão deles e da raça.

    Um dia eu cheguei e estavam todas elas conversando. E uma delas disse: “Poxa, vocês viram que os negros é quem mais têm covid, é quem mais tá pegando? Até nisso a gente sofre, né? Nossa genética até nisso é ruim”. Aí a gente já sentava ali pra conversar.  

     Vários diálogos incríveis que a gente teve, ela (Mônica) me ensinou muito, foi muito empoderador pra mim. Aí, nesse caso, a gente sentou e conversou...que não era porque os negros eram mais frágeis, não era porque a genética é ruim. Mas sim por causa das condições desiguais que são colocadas para os negros. Somos nós que estamos no transporte público, que temos que trabalhar na casa do patrão…

     (...) No encontro do Conselho de saúde tem toda representatividade. Tanto de indígenas quanto de quilombolas. A gente tem contato com as referências comunitárias de cada uma dessas comunidades, e elas sempre constroem tudo com a gente.

  • TRABALHO COLETIVO

     Eu tive a oportunidade de levar alguns catálogos para as meninas (UBS) de projetos em unidades de saúde com plantas medicinais, então elas: caramba isso aqui a gente tem, a gente tem também, só tinha o nome diferente, mas a planta era a mesma, elas conheciam por outro nome, né? Então assim, de trazer, a gente tem poder aqui na nossa terra, na natureza também pra gente se curar, como era que o nosso povo fazia antes? Então isso daí a gente sempre pensa no perfil profissional que vá proporcionar esse tipo de diálogo com as pessoas.

    Sobre o projeto sentinelas, eu fui muito bem orientada pelo conselho de Terapia Ocupacional e Fisioterapia e pelo município também.

    Novas possibilidades de cuidado, não necessariamente a gente precisa estar tão perto, mas eu posso ouvir o sofrimento de alguém, uma demanda que alguém apresente, um questionamento e ter uma escuta mesmo a distância, então assim, novas formas de cuidado, novas formas de se ver enquanto coletivo. Eu espero que as pessoas entendam isso, né? de quanto o coletivo é importante, eu fazendo a minha parte, eu tô atingindo não só a mim, mas todo um coletivo.

 

     De pensar uma prática em movimento, uma prática sem paredes [...] Olhar pra gente e também se sentir fortalecido, de nunca esperar algo dessa proporção, mas mesmo diante disso, a gente fez um SUS de qualidade, a gente teve um atendimento integralizado, humanizado, então espero que isso (a experiência da pandemia) traga isso pra gente, de renovar nossa forma de cuidar, de construir vínculos, de ver o outro de novas formas.